Revisão de Literatura – Exc. in Reac. Journal. (Bahia) 1 (1) * jul 2026 *10.5281/zenodo.21656643
A HUMANIZAÇÃO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM NA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NEONATAL: UMA REVISÃO DA LITERATURA
Autores: Ana Victória Moreira Lima Mariz Cartaxo, Anne Caroline de Souza, Thárcio Ruston Oliveira Braga, Jalles Dantas de Lucena.
RESUMO: A humanização do cuidado de enfermagem em unidades de terapia intensiva, especialmente na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neo), configura-se um desafio diante da alta complexidade tecnológica e da necessidade de monitoramento contínuo. Nesse contexto, torna-se fundamental compreender como a equipe de enfermagem articula o cuidado técnico com práticas humanizadas, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também as dimensões emocionais, sociais e culturais do recém-nascido e de sua família. A humanização, orientada pela Política Nacional de Humanização, visa promover acolhimento, respeito, segurança e individualização da assistência, contribuindo para uma experiência mais digna e integral no ambiente hospitalar. Deste modo, este estudo tem como objetivo compreender como os princípios da humanização são aplicados na prática e de que maneira impactam positivamente a experiência do paciente e de seus familiares. Trata-se de uma revisão de literatura, de caráter descritivo e abordagem qualitativa, realizada nas bases de dados LILACS, MEDLINE e BDENF. Para a seleção dos estudos, foram utilizados descritores cadastrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Humanização; Assistência de Enfermagem; UTI; Neonatologia; Recém-nascido, combinados pelo operador booleano “AND”. Foram incluídos artigos publicados em português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra e publicados entre no período entre 2020 e 2025, sendo excluídos trabalhos que não respondiam ao objetivo proposto. Os resultados evidenciaram que a humanização do cuidado em UTI neonatal está associada a práticas como acolhimento, escuta qualificada, comunicação efetiva e inclusão da família no processo assistencial. Além disso, destacou-se a importância do cuidado individualizado ao recém-nascido, respeitando suas necessidades. Entretanto, foram identificados desafios significativos, como a sobrecarga de trabalho, limitações estruturais e a predominância de uma assistência tecnicista, que dificultam a implementação plena da humanização no cotidiano das UTIs. Conclui-se que a humanização do cuidado de enfermagem em UTI neonatal é essencial para a promoção de uma assistência integral e de qualidade, sendo necessária a adoção de estratégias que fortaleçam a formação profissional, as condições de trabalho e as políticas institucionais voltadas à humanização, a fim de garantir um cuidado mais sensível, ético e centrado no paciente e em sua família.
Palavras-chave: Humanização; Assistência de Enfermagem; Unidade de Terapia Intensiva; Neonatologia; Recém-nascido.
INTRODUÇÃO
A Unidade de Terapia Intensiva Neonatal (UTI Neo) é um setor hospitalar altamente especializado, destinado ao atendimento de recém-nascidos que necessitam de cuidados intensivos e contínuos. Trata-se de um ambiente equipado com tecnologia avançada e conduzido por uma equipe multiprofissional, composta por médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde, todos preparados para lidar com situações críticas (BARBOSA et al., 2021). Além da assistência técnica, é fundamental que o cuidado seja integral, considerando não apenas o paciente, mas também o contexto familiar e social. Nesse sentido, a humanização torna-se essencial, pois envolve o respeito aos valores individuais e culturais de cada indivíduo ou família, esperanças e questões psicossociais de cada indivíduo, garantindo que o tratamento seja mais empático e centrado na pessoa (VAZ et al., 2024).
A Política Nacional de Humanização (PNH) surge como um marco importante para consolidar os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) na prática cotidiana dos serviços de saúde. Seu objetivo é promover mudanças nos modos de cuidar, aproximando profissionais e usuários em uma relação mais ética e solidária. Vinculada à Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, a PNH conta com equipes regionais que elaboram planos de ação em parceria com secretarias estaduais e municipais, buscando implementar iniciativas inovadoras nos processos de cuidado (OLIVEIRA et al., 2022). Dessa forma, a humanização não se restringe a um conceito, mas se traduz em práticas concretas que fortalecem o vínculo entre equipe, paciente e família.
As diretrizes da PNH são orientadas por princípios políticos, clínicos e éticos, que se materializam em ações como o acolhimento. Esse conceito, segundo Nascimento et al. (2023), significa reconhecer e valorizar o que o outro traz, seja em termos de necessidades, sentimentos ou expectativas. No contexto da UTI Neo, acolher significa ouvir e respeitar tanto o recém-nascido quanto sua família, criando um ambiente de confiança e cuidado compartilhado. Essa prática contribui para reduzir o sofrimento e aumentar a sensação de segurança, mesmo em situações de grande fragilidade.
A segurança dos pacientes é outro aspecto central na UTI Neo, exigindo medidas rigorosas de prevenção de infecções e erros assistenciais. Entre elas, destacam-se a higienização adequada das mãos, o uso correto dos equipamentos de proteção individual (EPI), a administração segura de medicamentos e a identificação precisa de cada paciente (SILVA et al., 2024). Essas práticas não apenas garantem a integridade física do recém-nascido, mas também reforçam a confiança da família no serviço prestado. A humanização, nesse contexto, também se manifesta ao transformar protocolos técnicos em ações cuidadosas e respeitosas.
O monitoramento permanente dos pacientes é responsabilidade da equipe de enfermagem, que deve manter atenção constante aos sinais vitais, como frequência cardíaca, respiratória, pressão arterial, oximetria de pulso e temperatura (NASCIMENTO et al., 2023). Além disso, é essencial verificar a adequação dos parâmetros ventilatórios em pacientes que dependem de ventilação mecânica, bem como acompanhar a função renal e hepática (COSTA et al., 2022). Esse acompanhamento contínuo garante respostas rápidas diante de qualquer alteração clínica, reforçando a importância da vigilância intensiva.
Cada paciente na UTI Neo possui necessidades específicas que exigem cuidados individualizados. Isso inclui o manejo da dor, a realização de procedimentos invasivos e a prevenção de lesões por pressão. A hospitalização, especialmente em ambiente intensivo, pode gerar sofrimento emocional tanto para o paciente quanto para seus familiares. Nesse sentido, o enfermeiro desempenha papel fundamental ao oferecer apoio, orientações claras e conforto, além de manter a família informada sobre o estado de saúde do recém-nascido (SILVA et al., 2022). Esse cuidado emocional é parte integrante da humanização.
A assistência humanizada em enfermagem na UTI Neo envolve um conjunto de conhecimentos técnicos e relacionais. É essencial que a equipe esteja preparada para atender cada necessidade de forma individual, priorizando sempre a qualidade de vida do paciente (AGRA et al., 2024). A abordagem holística, que considera o paciente em sua totalidade, é indispensável para promover um cuidado mais humano e eficaz. Para isso, é importante que os profissionais participem regularmente de programas de treinamento, que abrangem desde técnicas de cuidados intensivos até o uso de novas tecnologias (ANDRADE et al., 2024).
Estudos como este se justificam como necessários, pois é fundamental que a equipe de enfermagem esteja preparada para atender de forma individual as necessidades de cada paciente, priorizando sempre sua qualidade de vida e dignidade. No caso da UTI Neo, isso envolve não apenas o cuidado clínico especializado, mas também o apoio à família, que vivencia momentos de fragilidade e ansiedade.
Diante desse contexto, este estudo tem como objetivo descrever, por meio de revisão da literatura, a humanização do cuidado de enfermagem em UTIs, com ênfase na UTI Neonatal, buscando compreender como os princípios da humanização são aplicados na prática e de que maneira impactam positivamente a experiência do paciente e de seus familiares.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão de literatura, de caráter descritivo e qualitativo. A pesquisa foi realizada nas bases de dados eletrônicas Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE) e Bases de Dados de Enfermagem (BDENF).
Para a seleção dos artigos, foi utilizado o operador booleano “AND” e os descritores cadastrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): Humanização; Assistência de Enfermagem; UTI; Neonatologia; Recém-nascido.
Dessa forma, para a seleção dos estudos, foram adotados os seguintes critérios de inclusão: artigos publicados em português, inglês e espanhol, disponíveis na íntegra e publicados nos últimos cinco anos, no período entre 2020 e 2025. Foram excluídas teses, monografias e publicações que não respondiam ao objetivo proposto.
Após a busca, foi realizada a leitura dos resumos e os estudos foram selecionados criteriosamente para a elaboração deste trabalho. Em seguida, foi realizado o levantamento de informações e variáveis do estudo, a partir de diferentes materiais bibliográficos já publicados, expondo a visão de diversos autores, seguindo da análise dos estudos.
FIGURA 1 –Fluxograma de identificação e seleção dos artigos que emergiram da busca tematizada.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A partir da busca e seleção dos estudos, foram identificados 08 estudos que abordam a humanização do cuidado de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), com ênfase na UTI Neo, contemplando diferentes perspectivas sobre a prática assistencial. Os estudos incluídos foram analisados quanto aos seus objetivos e principais achados, permitindo compreender como os princípios da humanização são aplicados no contexto hospitalar, especialmente no cuidado ao recém-nascido e à sua família. Dessa forma, o quadro a seguir apresenta a síntese dos artigos selecionados, destacando autor e ano, título, objetivo e principais achados, a fim de facilitar a visualização e comparação das evidências encontradas na literatura.
Quadro 1 – Síntese dos estudos selecionados sobre humanização da assistência de enfermagem em UTIs.
| Autor/Ano | Título | Objetivo | Principais Achados |
| PRADO et al., 2022 | Humanização em enfermagem na terapia intensiva à luz da teoria de Wanda Aguiar Horta: um estudo reflexivo | Refletir sobre a humanização da assistência de enfermagem em UTI com base na teoria de Wanda Horta. | Evidenciou que o cuidado humanizado fortalece a relação enfermeiro-paciente e contribui para uma assistência integral e centrada nas necessidades humanas. |
| FREITAS et al., 2023 | A percepção do Enfermeiro quanto ao cuidado humanizado no âmbito da UTI: Revisão de Literatura | Analisar a percepção dos enfermeiros acerca da humanização na UTI. | Os profissionais reconhecem a importância da humanização, porém apontam limitações relacionadas à sobrecarga de trabalho e à rotina intensa do setor. |
| TAVARES et al., 2023 | Assistência da Enfermagem na UTI Humanizada | Identificar a importância da assistência humanizada na terapia intensiva. | Demonstrou que a humanização melhora a comunicação entre profissionais, pacientes e familiares, favorecendo a qualidade da assistência. |
| SILVA et al., 2021 | Assistência de Enfermagem e o Cuidado Humanizado em Unidade de Terapia Intensiva | Discutir a relevância do cuidado humanizado na UTI. | Verificou que a assistência muitas vezes permanece centrada na doença, dificultando uma abordagem integral do paciente. |
| LEAL et al., 2023 | (Des) Caminhos Rumo à Humanização da Assistência em UTI | Investigar os desafios relacionados à implementação da humanização em UTIs. | Destacou a necessidade de capacitação contínua dos profissionais para conciliar tecnologia e cuidado humanizado. |
| FELICIO et al., 2024 | Desafios da Assistência de Enfermagem Humanizada na Unidade de Terapia Intensiva | Identificar os principais desafios enfrentados pelos enfermeiros na humanização da assistência. | Foram apontados fatores como déficit de recursos humanos, excesso de demandas e limitações estruturais. |
| REIS et al., 2023 | Humanização na Unidade de Terapia Intensiva: Interface com a Assistência Prestada pela Equipe de Enfermagem | Analisar a influência da humanização na assistência de enfermagem em UTI. | A flexibilização das visitas familiares e o fortalecimento dos vínculos contribuíram para maior conforto emocional dos pacientes. |
| PEREIRA; CHAGAS, 2024 | A Importância do Enfermeiro na Humanização Voltada aos Cuidados na UTI | Evidenciar a atuação do enfermeiro na promoção da humanização em UTI. | A comunicação clara e acolhedora foi considerada essencial para reduzir a ansiedade dos familiares e aumentar a confiança no tratamento. |
| ARAÚJO et al., 2022 | Os Desafios de Humanizar na Unidade Dentro das Perspectivas dos Profissionais de Saúde: Uma Revisão da Literatura | Compreender os desafios da humanização sob a perspectiva dos profissionais de saúde. | Os autores observaram que práticas de acolhimento e apoio psicológico favorecem a humanização, apesar das dificuldades institucionais. |
| DUARTE et al., 2025 | Impactos da Humanização nos Cuidados de Pacientes em Unidade de Terapia Intensiva | Avaliar os impactos da humanização nos cuidados intensivos. | Concluiu que a humanização promove maior segurança, satisfação dos usuários e melhora na qualidade da assistência prestada. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
A humanização do cuidado de enfermagem em UTIs está diretamente relacionada à evolução histórica desses serviços, que surgiram com o propósito de oferecer assistência especializada a pacientes em estado crítico. Os primeiros leitos destinados ao cuidado intensivo foram criados em 1923 pelo Dr. Walter Edward Dandy, no Hospital Johns Hopkins, em Baltimore, nos Estados Unidos. Trinta e cinco anos mais tarde, a primeira UTI foi oficialmente implantada na mesma instituição. Com a ampliação da demanda por atendimento a pacientes traumatizados e gravemente enfermos, tornou-se necessário expandir os serviços especializados, fortalecendo a capacidade assistencial. Nesse contexto, além dos avanços técnicos, consolidou-se a necessidade de desenvolver práticas humanizadas que garantissem um cuidado integral e centrado nas necessidades dos pacientes (PRADO et al., 2022).
A humanização do cuidado de enfermagem em UTIs depende de condições estruturais adequadas para garantir uma assistência segura e de qualidade. Dessa forma, esses setores devem contar com recursos humanos, materiais e físicos compatíveis com as necessidades dos pacientes atendidos. Considerando a complexidade dos cuidados prestados, torna-se indispensável que os profissionais possuam qualificação técnica para utilizar os recursos tecnológicos disponíveis. Contudo, a humanização exige que essa competência seja acompanhada por atitudes de acolhimento, respeito e valorização das individualidades de cada paciente (FREITAS et al., 2023).
A comunicação constitui um dos principais pilares da humanização do cuidado em UTIs. Nesse sentido, a assistência humanizada favorece o fortalecimento das relações entre profissionais de saúde, pacientes e familiares, promovendo maior confiança, acolhimento e participação durante o processo terapêutico. Dessa forma, a comunicação efetiva contribui para uma assistência mais próxima, sensível e centrada nas necessidades humanas (TAVARES et al., 2023).
Apesar dos avanços alcançados, a humanização ainda enfrenta desafios significativos nos serviços de saúde públicos e privados. Um dos principais obstáculos está relacionado à valorização excessiva dos aspectos biológicos da doença, em detrimento das necessidades emocionais, sociais e subjetivas dos pacientes. Dessa forma, torna-se essencial desenvolver estratégias que permitam enxergar o indivíduo em sua totalidade, fortalecendo uma assistência verdadeiramente humanizada (SILVA et al., 2021).
À medida que novos recursos tecnológicos são incorporados às UTIs, torna-se fundamental investir na capacitação dos profissionais para a oferta de um cuidado humanizado. Além do domínio técnico, a formação deve contemplar aspectos éticos, relacionais e humanísticos, permitindo que a assistência seja desenvolvida de forma integral e centrada nas necessidades dos pacientes e de seus familiares (LEAL et al., 2023).
O Programa Nacional de Humanização dos Serviços de Saúde, instituído pelo Ministério da Saúde em 2000, representa um importante instrumento para a consolidação da humanização na assistência. Seu principal objetivo é minimizar as dificuldades enfrentadas pelos usuários durante o tratamento, favorecendo a recuperação e fortalecendo a comunicação entre a equipe de saúde e os pacientes. Dessa forma, contribui para a construção de uma assistência mais inclusiva, acolhedora e resolutiva (FELICIO et al., 2024).
O controle rigoroso das infecções associadas ao uso de cateteres também integra as práticas de humanização da assistência. Nesse processo, os enfermeiros desempenham papel fundamental ao garantir a adoção de medidas assépticas durante a inserção e manutenção desses dispositivos, contribuindo para a segurança dos pacientes e para a prevenção de complicações que possam comprometer sua recuperação (DUARTE et al., 2025).
Entre as estratégias de humanização mais valorizadas nas UITs destacam-se a ampliação das visitas familiares e a oferta de apoio psicológico. A aproximação entre pacientes e familiares contribui para a redução da ansiedade, fortalece os vínculos afetivos e proporciona suporte emocional em momentos de fragilidade, beneficiando todos os envolvidos no processo de cuidado (ARAÚJO et al., 2022).
A flexibilização dos horários de visita tem sido reconhecida como uma importante prática humanizadora. Ao permitir maior permanência dos familiares junto aos pacientes, promove-se conforto emocional e fortalece-se a participação da família no processo terapêutico. Essa estratégia está alinhada aos princípios do cuidado centrado no paciente e contribui para tornar a experiência da internação menos traumática (REIS et al., 2023).
A comunicação efetiva entre a equipe de saúde e os familiares constitui um elemento indispensável para a humanização do cuidado de enfermagem em UTIs. A transparência das informações e a disponibilidade dos profissionais para esclarecer dúvidas favorecem a construção de um ambiente acolhedor, reduzem o estresse dos familiares e fortalecem a confiança na assistência prestada, contribuindo para uma experiência mais segura e humanizada (PEREIRA; CHAGAS, 2024).
O fortalecimento do vínculo entre enfermeiro e paciente desponta como um dos principais benefícios da assistência humanizada em ambientes de terapia intensiva. Quando o cuidado é guiado pela empatia e pelo respeito às demandas físicas, emocionais e sociais do indivíduo, criam-se laços de confiança que potencializam a reabilitação e suavizam a experiência da internação. Sob essa ótica, a prática humanizada transcende os protocolos estritamente técnicos, alcançando o paciente em sua totalidade (PRADO et al., 2022).
Por outro lado, a sobrecarga profissional e a intensa demanda por cuidados representam barreiras expressivas para a consolidação dessas práticas nas UTIs. Diante do acúmulo de tarefas e responsabilidades concomitantes, o tempo essencial para a escuta atenta e o acolhimento de pacientes e seus familiares acaba, muitas vezes, sendo sacrificado. Esse cenário evidencia a urgência de investimentos em infraestrutura laboral e em um dimensionamento mais equilibrado das equipes de enfermagem (FREITAS et al., 2023).
Paralelamente, há o desafio constante de conciliar as inovações tecnológicas com um modelo de cuidado focado na pessoa. Embora os aparatos tecnológicos sejam vitais para monitorar e tratar quadros críticos, eles jamais devem ofuscar a sensibilidade, o diálogo e a proximidade humana. A humanização, portanto, atua como um pilar complementar e indispensável ao suporte tecnológico (LEAL et al., 2023).
Os obstáculos de ordem estrutural também repercutem diretamente na qualidade desse acolhimento. Gargalos na disponibilidade de pessoal, insumos e na própria organização institucional tendem a travar ações voltadas à personalização do atendimento. Para superar esse panorama, cabe aos gestores e às instituições de saúde formular estratégias que viabilizem cenários propícios ao desenvolvimento de uma assistência integral (FELICIO et al., 2024).
Nesse contexto, a conduta do enfermeiro assume um papel central na disseminação da cultura humanizada dentro das unidades críticas. Pela sua presença contínua à beira do leito, este profissional detém uma posição estratégica para mapear as particularidades de cada paciente, construir conexões terapêuticas e intermediar o diálogo entre a equipe multidisciplinar, os doentes e suas famílias, atenuando as angústias do período de hospitalização (PEREIRA; CHAGAS, 2024).
Somado a isso, intervenções direcionadas ao suporte emocional trazem reflexos claramente positivos para quem vivencia a rotina de uma UTI. Ao valorizar o amparo psicológico, a escuta ativa e as percepções subjetivas de quem adoece, promove-se o equilíbrio psíquico e a mitigação das dores ligadas ao internamento, validando as diretrizes que sustentam a filosofia humanizada (ARAÚJO et al., 2022).
Por fim, os desdobramentos da humanização estendem-se além da percepção de bem-estar dos pacientes e de seus familiares, impactando positivamente os próprios indicadores de qualidade dos serviços. A consolidação de um espaço seguro, acolhedor e atento às necessidades humanas reflete-se em desfechos clínicos mais favoráveis, no aumento da credibilidade das instituições de saúde e no devido reconhecimento do trabalho executado pela enfermagem (DUARTE et al., 2025).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da análise dos estudos revisados, verificou-se que a humanização do cuidado de enfermagem em UTIs, sobretudo na UTI neonatal, constitui um aspecto indispensável para assegurar uma assistência integral e de qualidade. Mesmo em um ambiente marcado pela elevada complexidade tecnológica e pela necessidade de vigilância constante, torna-se possível articular o cuidado técnico com práticas humanizadas. Entre essas práticas destacam-se o acolhimento, a escuta qualificada, a comunicação eficiente e a inclusão da família no processo assistencial. Nesse contexto, a enfermagem desempenha papel fundamental na criação de vínculos e na oferta de um cuidado atento às demandas do recém-nascido e de seus familiares.
Por outro lado, os estudos também revelaram obstáculos significativos, como a sobrecarga de trabalho, as limitações estruturais e a predominância de uma assistência excessivamente tecnicista, fatores que podem dificultar a consolidação da humanização no cotidiano das UTIs. Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de investimentos voltados à formação profissional, ao fortalecimento das políticas de humanização e à melhoria das condições de trabalho da equipe de enfermagem. Conclui-se, portanto, que a humanização do cuidado em UTI neonatal não deve ser vista como um complemento, mas sim como um princípio essencial da assistência. Essa abordagem é capaz de impactar positivamente a experiência do paciente e de sua família, além de contribuir para melhores resultados clínicos e para uma maior qualidade na prestação do cuidado.
Referências
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