Revisão de Literatura – Exc. in Reac. Journal. (Bahia) 1 (1) * mar 2026 * 10.5281/zenodo.19009088
CEFALEIA CRÔNICA POR USO EXCESSIVO DE ANALGÉSICOS: REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA
Autores: João Alves De Freitas Filho, Tereza Emilly Ponce Pereira, Yarlley Dos Santos Andrade, João Victor Jácome De Lima Brito, José Guilherme Ferreira Marques Galvão, Ana Emilia Formiga Marques, Carla Islene Holanda Moreira.
RESUMO: A cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos configura-se como uma condição secundária e iatrogênica, resultante do consumo frequente e prolongado de medicamentos utilizados para o alívio da dor. Trata-se de um problema de relevância clínica e de saúde pública, uma vez que compromete significativamente a qualidade de vida, a produtividade e o bem-estar psicossocial dos indivíduos acometidos. O presente estudo teve como objetivo discorrer sobre o uso excessivo de analgésicos relacionado ao desenvolvimento da cefaleia crônica, identificando os principais fármacos envolvidos, fatores associados, impactos clínicos e estratégias terapêuticas. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo, com abordagem quantitativa, realizada nas bases de dados SciELO, LILACS e PubMed/MEDLINE, no período de janeiro a março de 2026. Foram incluídos artigos originais publicados entre 2021 e 2025, nos idiomas português e inglês. Após aplicação dos critérios de elegibilidade, oito estudos compuseram a amostra final. Os resultados evidenciaram que os anti-inflamatórios não esteroides e triptanos estão entre os medicamentos mais associados à cronificação da dor, especialmente em contextos de automedicação. Observou-se ainda associação com fatores emocionais, como ansiedade e estresse, além de impactos funcionais e econômicos significativos. Conclui-se que a prevenção da cefaleia por uso excessivo de analgésicos depende de estratégias de educação em saúde, acompanhamento multiprofissional e promoção do uso racional de medicamentos.
Palavras-chave: Cefaleia crônica. Analgésicos. Automedicação. Uso racional de medicamentos. Saúde pública.
ABSTRACT: Chronic headache due to analgesic overuse is characterized as a secondary and iatrogenic condition resulting from the frequent and prolonged consumption of pain-relief medications. It represents a relevant clinical and public health issue, as it significantly affects patients’ quality of life, productivity, and psychosocial well-being. This study aimed to discuss the excessive use of analgesics associated with the development of chronic headache, identifying the main drugs involved, related factors, clinical impacts, and therapeutic strategies. This is an integrative literature review with a descriptive and quantitative approach, conducted in the SciELO, LILACS, and PubMed/MEDLINE databases between January and Mar 2026. Original articles published between 2021 and 2025 in Portuguese and English were included. After applying the eligibility criteria, eight studies composed the final sample. The findings showed that nonsteroidal anti-inflammatory drugs and triptans are among the medications most associated with pain chronification, especially in self-medication contexts. Emotional factors such as anxiety and stress were also identified, as well as significant functional and economic impacts. It is concluded that the prevention of medication overuse headache depends on health education strategies, multidisciplinary follow-up, and the promotion of rational drug use.
Keywords: Chronic headache. Analgesics. Self-medication. Rational drug use. Public health.
INTRODUÇÃO
A cefaleia, frequentemente referida como dor de cabeça, constitui uma das condições neurológicas mais prevalentes globalmente. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), trata-se de um grupo de distúrbios dolorosos recorrentes, incluindo enxaqueca, cefaleia tensional e cefaleia em salvas, que exercem impacto substancial na qualidade de vida dos indivíduos. Clinicamente, as cefaleias são classificadas em primárias, quando a dor representa a própria patologia, e secundárias, quando decorrem de outras condições médicas subjacentes (OMS, 2023).
O controle da dor constitui um dos principais objetivos da terapêutica moderna, visto que o alívio do desconforto físico é fundamental para a recuperação e o bem-estar do paciente. Diversas estratégias podem ser empregadas nesse contexto, sendo o tratamento farmacológico uma das mais utilizadas devido à sua eficácia e rapidez de ação. Entre os medicamentos destinados a esse propósito, destacam-se os analgésicos, que atuam sobre o sistema nervoso central e periférico modulando os sinais nociceptivos e reduzindo a percepção da dor (MSD, 2024).
Esses fármacos são classificados, de modo geral, em duas categorias principais: os analgésicos não opioides, como o paracetamol e os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), indicados para o manejo de dores leves a moderadas e com baixo risco de dependência; e os analgésicos opioides, como a morfina, a codeína e o tramadol, empregados no tratamento de dores moderadas a intensas, com maior potência analgésica, embora associados a maiores riscos de efeitos adversos, tolerância e dependência (Santana, 2024).
O uso excessivo e prolongado de analgésicos tem se tornado um importante fator desencadeante de cefaleia crônica, especialmente entre indivíduos que sofrem de enxaqueca ou cefaleia tensional (Cordeiro, 2022). A automedicação e a falta de acompanhamento profissional adequado contribuem para a transformação de episódios agudos de dor em quadros contínuos e debilitantes. De acordo com a Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3), essa condição é reconhecida como uma cefaleia secundária, com critérios diagnósticos bem definidos, embora ainda frequentemente subdiagnosticada na prática clínica (Reis et al., 2023).
Sob a perspectiva fisiopatológica, considera-se que o uso excessivo de analgésicos modifique os mecanismos de controle da dor no sistema nervoso central, induzindo um estado de sensibilização que mantém a cefaleia. O ciclo de dor e medicação, no qual o paciente busca alívio imediato com o fármaco, mas acaba agravando o quadro, perpetua a condição. Esse padrão é mais comum em indivíduos com enxaqueca, que já apresentam maior predisposição neurobiológica à dor (Zanella, 2023).
A prevalência da Cefaleia por uso excessivo de medicamentos (CEM) em serviços especializados é expressiva, alcançando até 80% dos casos de cefaleia crônica. A predominância em mulheres sugere influência de fatores hormonais e socioculturais, como maior sobrecarga de responsabilidades, níveis elevados de estresse e menor acesso a serviços especializados. Além do sofrimento físico, a CEM compromete a qualidade de vida, reduz a produtividade, impacta o bem-estar psicológico e gera altos custos para o sistema de saúde, devido ao consumo contínuo de medicamentos e à procura frequente por atendimento emergencial (Silva et al., 2021).
O tratamento da CEM requer abordagem multidisciplinar, que deve incluir a educação do paciente, a retirada gradual dos analgésicos, a introdução de terapias preventivas e o acompanhamento psicológico. A suspensão abrupta da medicação pode provocar efeito rebote, intensificando a dor, o que reforça a necessidade de um plano terapêutico individualizado. Além disso, ações de saúde pública como campanhas educativas, protocolos clínicos e capacitação de profissionais são indispensáveis para reduzir a incidência da CEM e melhorar a assistência prestada (Santana et al., 2025).
Considerando que o uso excessivo de analgésicos pode desencadear cefaleia crônica e comprometer de maneira significativa a qualidade de vida, este estudo justifica-se pela relevância científica e social em aprofundar o conhecimento acerca dessa condição e de seus fatores associados. Dessa forma, a presente pesquisa busca contribuir para o fortalecimento das práticas de uso racional de medicamentos, favorecendo uma compreensão mais ampla sobre os riscos do consumo inadequado e seus impactos sobre a saúde. Além disso, pretende-se oferecer subsídios que apoiem estratégias de prevenção, manejo adequado da dor e desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas e investigativas na área.
Diante do exposto, a elaboração dessa revisão da literatura, será conduzida com base no seguinte questionamento: como o uso excessivo de analgésicos impacta no desenvolvimento da cefaleia crônica?
Este trabalho tem como objetivo discorrer sobre o uso excessivo de analgésicos relacionado ao desenvolvimento da cefaleia crônica. Apresentando os tipos de analgésicos mais frequentemente utilizados; Relacionando os principais fatores associados ao uso excessivo de analgésicos em pacientes com cefaleias primárias; Descrevendo os impactos clínicos, emocionais e sociais da cefaleia crônica por uso irracional de medicamentos e expondo as principais estratégias utilizadas para tratar a cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos.
METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo, empregando-se uma abordagem quantitativa. A revisão da literatura consistiu em um tipo de estudo responsável por traçar um panorama aprofundado da produção científica acerca de um determinado tema, apresentando as principais abordagens e o corpus da teoria acumulada sobre a temática (Mariano; Santos, 2017).
A presente pesquisa foi realizada mediante a pergunta condutora: “Como o uso excessivo de analgésicos impactou no desenvolvimento da cefaleia crônica?”. Para melhor interpretação, foi utilizado o acrônimo de busca PICO (População: indivíduos com cefaleia crônica; Interesse: uso excessivo de analgésicos; Contexto: repercussões clínicas e desenvolvimento da cefaleia crônica).
A elaboração da revisão seguiu as seguintes etapas: 1ª elaboração da pergunta condutora; 2ª busca ou amostragem na literatura; 3ª coleta de dados; 4ª análise crítica dos estudos incluídos; 5ª discussão dos resultados; 6ª apresentação da revisão integrativa (Souza; Silva; Carvalho, 2010).
O levantamento bibliográfico ocorreu no período de janeiro a março de 2026. A busca dos artigos foi realizada em periódicos indexados nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e National Library of Medicine (PubMed/MEDLINE).
Para a seleção dos estudos, foram empregados os descritores nos idiomas português e inglês: “Cefaleia Crônica” [Headache Disorders], “Analgésicos” [Analgesics] e “Automedicação” [Drug Utilization], todos cadastrados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS/MeSH). O operador booleano “AND” e “OR” foi empregado para o cruzamento dos descritores em múltiplas combinações.
As estratégias de pesquisa empregadas foram descritas a seguir no Quadro.
Quadro 1 – Estratégias de busca utilizadas nas bases de dados.
| Base de Dados | Descritores e Estratégias de Busca |
| SciELO | (“Cefaleia Crônica” OR “Headache Disorders”) AND (“Analgésicos” OR “Analgesics”) AND (“Automedicação” OR “Drug Utilization”) |
| LILACS | (“Cefaleia Crônica” AND “Analgésicos”) OR (“Automedicação” AND “Cefaleia Crônica”) |
| PubMed/MEDLINE | (“Headache Disorders” AND “Analgesics”) OR (“Drug Utilization” AND “Chronic Headache”) |
Fonte: dados da pesquisa (2025).
A seleção dos artigos seguiu critérios de elegibilidade previamente definidos. Foram incluídos artigos originais completos, disponíveis gratuitamente, publicados em português ou inglês no período de 2021 a 2025. Foram excluídos estudos secundários, como revisões de literatura, monografias, dissertações e teses.
O processo de seleção seguiu o modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses). Inicialmente, foi realizada a identificação dos artigos nas bases de dados, seguida da triagem por meio da leitura dos títulos e resumos para exclusão dos estudos não pertinentes. Em seguida, os artigos potencialmente elegíveis foram lidos na íntegra, e aqueles que atenderam aos critérios previamente estabelecidos foram incluídos na revisão, conforme demonstrado no Fluxograma da Figura 1.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
A busca sistemática identificou 207 artigos nas bases SciELO, LILACS e PubMed/MEDLINE. Após remoção de duplicatas e triagem por títulos e resumos, 112 estudos foram selecionados para leitura parcial. Desses, 45 artigos foram avaliados na íntegra e, ao final da aplicação dos critérios de elegibilidade, 8 estudos originais publicados entre 2021 e 2025 foram incluídos na síntese integrativa (SciELO = 1; LILACS = 2; PubMed/MEDLINE = 5).
Tabela 1 – Síntese dos achados dos estudos incluídos (2021–2025)
| COD | Autor/Ano | Título | Objetivo | Achados |
| A1 | Alshareef, 2025 | The burden of analgesics overprescription for chronic headache: impacts on patients, healthcare system and countries | Analisar o impacto da prescrição excessiva de analgésicos em pacientes com cefaleia crônica e seus reflexos nos sistemas de saúde. | Evidenciou aumento de incapacidade, prejuízo à qualidade de vida e elevação de custos diretos e indiretos, destacando a necessidade de estratégias de uso racional de medicamentos. |
| A2 | Carvalho Schueler, 2025 | Cefaleia por uso excessivo de medicamentos | Discutir os aspectos clínicos, diagnósticos e terapêuticos da cefaleia por uso excessivo de medicamentos. | Reforçou os critérios diagnósticos da CEM, os principais fármacos envolvidos (AINEs e triptanos) e a importância da desintoxicação associada à profilaxia. |
| A3 | Chagas, 2021 | Conhecimento e uso das práticas integrativas e complementares no tratamento da dor | Avaliar o conhecimento e a utilização das práticas integrativas no manejo da dor. | Demonstrou que práticas como acupuntura são reconhecidas como estratégias complementares eficazes na redução da dor, com baixo risco iatrogênico. |
| A4 | Krymchantowski, 2025 | Medication overuse headache: a pragmatic 5-year, real-world study | Avaliar desfechos clínicos em pacientes com cefaleia por uso excessivo de medicamentos em seguimento de cinco anos. | Observou taxas significativas de remissão com desintoxicação e profilaxia, destacando a importância do acompanhamento prolongado. |
| A5 | Krymchantowski, 2024 | One-year and five-year outcomes in medication overuse headache: a real-world study | Investigar os resultados clínicos em um e cinco anos após intervenção terapêutica em CEM. | Identificou melhora sustentada em parte dos pacientes tratados, com redução da frequência das crises após manejo adequado. |
| A6 | Lopes, 2022 | Acupuntura e cefaleia: uma revisão integrativa acerca dos caminhos para alívio da dor e melhoria da qualidade de vida | Analisar evidências sobre o uso da acupuntura no tratamento da cefaleia. | Evidenciou redução da intensidade e frequência das crises, além de melhora na qualidade de vida. |
| A7 | Nascimento Reis, 2023 | Cefaleia por uso excessivo de analgésicos em estudantes de medicina de uma universidade privada | Investigar a prevalência de cefaleia por uso excessivo de analgésicos em estudantes de medicina. | Identificou presença significativa de automedicação e associação com cefaleia crônica, especialmente em contexto de estresse acadêmico. |
Fonte: Os autores, 2025.
Segundo Krymchantowski (2025), a cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos deve ser compreendida como uma condição multifatorial e progressiva, na qual fatores neurobiológicos se associam a componentes comportamentais e emocionais. A exposição repetitiva a analgésicos promove alterações nos mecanismos centrais de modulação da dor, favorecendo a sensibilização neural e a perpetuação das crises. Além disso, a dificuldade de reconhecimento precoce do quadro contribui para a manutenção do ciclo de dor e consumo medicamentoso, especialmente em indivíduos com histórico prévio de cefaleias primárias. Nessa mesma perspectiva, Alshareef et al. (2025) destacam que o uso recorrente de analgésicos está diretamente relacionado às alterações fisiopatológicas responsáveis pela cronificação das crises.
De acordo com Carvalho Schueler (2025), a prevalência da cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos pode estar subestimada, principalmente em contextos de atenção primária à saúde, onde a automedicação é frequente e muitas vezes não relatada durante as consultas. A ampla disponibilidade de anti-inflamatórios não esteroides e outros analgésicos, associada à cultura de medicalização rápida da dor, favorece o uso recorrente dessas substâncias sem acompanhamento profissional adequado. Corroborando essa análise, Krymchantowski (2024) ressalta que a automedicação e o fácil acesso aos analgésicos contribuem significativamente para a manutenção do ciclo de uso excessivo de medicamentos.
Segundo Alshareef et al. (2025), a maior vulnerabilidade feminina observada nos estudos sugere que fatores hormonais e sociais desempenham papel relevante na cronificação da cefaleia. As flutuações hormonais, associadas às múltiplas jornadas de trabalho e à maior exposição ao estresse, podem intensificar a frequência das crises e estimular a busca por alívio imediato por meio de analgésicos. Além disso, condições como ansiedade e sintomas depressivos atuam como fatores perpetuadores do consumo excessivo de medicamentos. De forma semelhante, Nascimento Reis et al. (2023) destacam que esses fatores reforçam o caráter biopsicossocial da condição e ampliam a complexidade do manejo clínico.
Conforme discutido por Alshareef et al. (2025), a cefaleia crônica por uso excessivo de medicamentos apresenta impactos que ultrapassam o âmbito clínico, afetando significativamente a funcionalidade e a qualidade de vida dos indivíduos acometidos. A condição está associada à redução da produtividade, afastamentos laborais e prejuízos nas relações interpessoais, configurando-se como um relevante problema de saúde pública. Em linha com esses achados, Nascimento Reis et al. (2023) ressaltam que os custos diretos relacionados ao tratamento e os custos indiretos decorrentes da perda de produtividade evidenciam a magnitude socioeconômica dessa condição.
Segundo Krymchantowski (2024), a desintoxicação medicamentosa planejada permanece como a principal estratégia terapêutica para o manejo da cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos. Essa abordagem geralmente é associada à introdução de terapias profiláticas, com o objetivo de reduzir a recorrência das crises e prevenir recaídas. Além disso, o acompanhamento contínuo e a orientação adequada ao paciente são fundamentais para o sucesso do tratamento, sobretudo durante o período inicial de retirada dos medicamentos. De modo complementar, Krymchantowski (2025) também destaca que uma abordagem estruturada e supervisionada pode promover melhora significativa dos sintomas em parte dos pacientes.
De acordo com Lopes et al. (2022), a incorporação de práticas integrativas e complementares amplia as possibilidades terapêuticas no manejo da dor crônica, oferecendo alternativas com menor risco iatrogênico. Intervenções como acupuntura e liberação miofascial apresentam potencial para reduzir a intensidade da dor e melhorar a qualidade de vida dos pacientes. Reforçando essa evidência, Silva et al. (2021) apontam que tais estratégias podem atuar como intervenções adjuvantes no processo de desintoxicação medicamentosa e na prevenção de recaídas.
Segundo Carvalho Schueler (2025), a atuação do farmacêutico clínico desempenha papel estratégico na prevenção do uso excessivo de analgésicos, especialmente por meio da identificação precoce de padrões de consumo inadequado e da orientação quanto aos riscos da automedicação. O acompanhamento farmacoterapêutico e as ações educativas também contribuem para fortalecer o uso racional de medicamentos. Nessa mesma direção, Alshareef et al. (2025) ressaltam que a implementação de protocolos de farmacovigilância e estratégias educativas comunitárias pode ampliar a segurança terapêutica e reduzir a incidência de novos casos.
Conforme apontado por Silva et al. (2021), apesar dos avanços na compreensão da cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos, ainda existem limitações importantes na literatura científica, como a predominância de estudos observacionais e a escassez de ensaios clínicos randomizados. Essas limitações dificultam a consolidação de evidências mais robustas para a prática clínica. De forma convergente, Chagas et al. (2021) destacam a necessidade de pesquisas com maior rigor metodológico, especialmente em contextos nacionais.
Por fim, segundo Krymchantowski (2025), a cefaleia crônica por uso excessivo de analgésicos configura-se como uma condição potencialmente evitável, embora ainda frequentemente negligenciada nos serviços de saúde. A prevenção depende da integração entre educação em saúde, acompanhamento multiprofissional e fortalecimento de políticas públicas voltadas ao uso racional de medicamentos. De maneira convergente, Nascimento Reis et al. (2023) ressaltam que a adoção de estratégias combinadas, envolvendo desintoxicação medicamentosa, profilaxia e intervenções complementares, pode contribuir para reduzir a cronificação da dor e melhorar os desfechos clínicos e psicossociais dos pacientes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A cefaleia crônica decorrente do uso abusivo de analgésicos caracteriza-se como uma condição iatrogênica de grande impacto, mas passível de prevenção. Esse quadro emerge principalmente da utilização prolongada e em alta frequência de fármacos analgésicos, muitas vezes em situações de automedicação. As análises disponíveis evidenciam que o consumo repetitivo de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e triptanos em pacientes com cefaleias primárias desempenha papel central na perpetuação da dor, resultando em prejuízos expressivos para a qualidade de vida, a produtividade e os custos em saúde.
Conclui-se que a prevenção da cefaleia por uso excessivo de analgésicos depende de ações educativas consistentes, acompanhamento profissional qualificado e fortalecimento de políticas públicas voltadas ao uso racional de fármacos. Recomenda-se que futuras pesquisas sejam conduzidas com metodologias mais robustas, capazes de gerar evidências sólidas para subsidiar protocolos clínicos eficazes e estratégias preventivas aplicáveis tanto na atenção primária quanto nos serviços especializados.
Referências
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